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O fetiche pela falência da Sega e da Nintendo

Especialmente graças ao Switch, mas também graças ao bom desempenho de The Legend of Zelda: Breath of the Wild e as boas expectativas em torno de Splatoon 2 e Arms, a Nintendo tem vivido um momento muito bom.

As coisas não foram bem assim na primeira metade da década, e não é segredo para ninguém. Falência? Bem, essa palavra visitou a boca e as postagens de muita gente no meio gamer, enquanto os mais ponderados tentavam alertar que o diagnóstico não fazia sentido.

Da mesma forma, o anúncio da falência da Sega tem sido alardeado desde que o console Dreamcast saiu de cena e alguns títulos de Sonic entraram em declínio. Essa semana li uma pérola que vai nesse sentido. Era algo como "Sonic Mania é a grande cartada da franquia, e se der errado a Sega poderá falir".


ZOGORRO VÃBOS FALIIIIIIRRRRR [Imagem original em Memória BIT].

Calma, jovem! Abandone o disk-emergência e deixe o SAMU para quem realmente precisa, pois agora teremos uma conversa mais ou menos definitiva sobre esse assunto que mexe tanto com a imaginação das torcidas.

Sobre a Sega e sua falência

Para começo de conversa, a Sega não se resume a Sonic. A resposta à pergunta "que jogos a Sega têm além de Sonic?" pode ser um barulhento silêncio, é verdade. O jogador menos hardcore só consegue ligar a Sega à imagem de um Mega Drive ou à do veloz porco-espinho azul (que sempre precisa se afirmar enquanto ouriço) e talvez desconheça séries excelentes como Yakuza ou Bayonetta.

Também não é muito popular a informação de que a Sega que conhecemos é apenas um dos braços do grande conglomerado Sega-Sammy Holdings. O verdadeiro tamanho da Sega se vê a partir daí.

A Sega-Sammy Holdings surgiu em 2004, a partir da fusão de duas companhias: a Sega e a Sammy (oh, não diga!?). É verdade que a Sammy comprou boa parte das ações da Sega e também é verdade que a Sega ia mal das pernas e que o insucesso do Dreamcast era uma das razões da baqueada. Mas a Sammy ia bem em seu mercado de pachinko (mais detalhes durante o texto) e só se fundiu à Sega porque, é claro, viu futuro nisso.

A Sega-Sammy tem negócios bastante diversificados dentro do ramo do entretenimento, mas vai um pouquinho além quando exibe em seu portfólio uma rede de luxuosos resorts integrados a cassinos. 

Phoenix Seagaia, um dos empreendimentos de sucesso da Sega-Sammy.

Outro dos negócios em que a Sega-Sammy é bastante bem sucedida e que pouco se fala no Brasil é no de amusement machines, que por aqui conhecemos genericamente como fliperamas. 


Aliás, cabe lembrar que enquanto a Sega parou com a fabricação de consoles domésticos e continuou com a de fliperamas, a Nintendo fez justamente o contrário, o que foi muito positivo para a consolidação dos pontos fortes de ambas.


MaiMai: jogo rítmico da Sega que é sucesso desde 2012 (não no Brasil, claro).

De qualquer forma, este não é um mercado tão aquecido em terras tupiniquins: de um lado, botequins decadentes oferecem fliperamas com mais de vinte anos a seus clientes embriagados e, de outro lado, centros de diversões como a Playland só sobrevivem com certa tranquilidade dentro de shopping centers.

No Japão, no entanto, esse gênero tem forte participação no mercado de jogos. Nele, a Sega tanto fabrica amusement machines como tem seus próprios centros de diversões (conhecidos lá fora como amusement centers). 

O êxito se repete em outras partes do mundo com os esperados altos e baixos: em Sydney, Austrália, o parque sobreviveu poucos meses após o fim das Olimpíadas de 2000; em Bristol, Reino Unido, um parque Sega foi demolido em 2008; já em Xangai, na China, um Joypolis foi inaugurado com requinte em 2016.


Joypolis: parque da Sega em Tokyo.
Joypolis em Xangai, China.

Sega Republic: parque da Sega em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Além disso, a Sega-Sammy também é proprietária de estúdios de mangás e animes, como o TMS Entretainment e a Marza Animation Planet.

A TMS-E é responsável, entre outras coisas, pelos sucessos Bakugan e Hamtaro. Já a Marza Animation Planet, além de produzir conteúdo para a própria Sega, também é responsável por sucessos relacionados a outras empresas como, por exemplo,  os games da Hatsune Miku, cantora virtual de grande sucesso naquele país.

Além disso (ufa!), a Sega-Sammy também participa do lucrativo (e, é bem verdade, controverso) mercado de pachinko, um jogo de azar muito comum no Japão, com traços de pinball e slot.

E além disso (tá acabando), a Sega-Sammy detém 10% da Sanrio, empresa por trás de personagens como a Hello Kitty — ame ou odeie a gatinha sem boca, mas não dá para negar que ela é lucrativa.

Participação recente de Hello Kitty no jogo casual 'Sonic Dash'.

Diante de tantos produtos rentáveis especular que a Sega pode vir à falência em razão do desempenho do Dreamcast ou dos jogos de Sonic feitos para o consumidor caseiro não faz o menor sentido.

Aliás, enquanto prata da casa, Sonic já desempenha uma grande colaboração agindo como mestre de cerimônia nos empreendimentos da holding ao redor do mundo. Em outras palavras, ele gera dividendos como mero mascote ou com amusement machines de uma forma como os títulos de sucesso de sua ex-arquirrival não geram.

Por falar na ex-arquirrival...:

E cadê a Dona Nintendo pedindo um empréstimo na Fininvest pra não falir?

Esperar a falência da Nintendo é esperar a queda final de uma empresa que tem tido altos e baixos desde os anos 1970, mas que tem sabido aproveitar seus personagens da Era de Ouro dos games (o pós-crash de 1983) como ninguém. A Sega faz parte desse "ninguém", inclusive — se considerarmos apenas os games para consoles domésticos, claro.

Parte de uma estrutura empresarial bem mais modesta que a da Sega, a Nintendo tem participações em vários estúdios de criação de jogos (boa parte produz exclusivamente para a Nintendo) além da joint venture The Pokémon Company.

Acredite ou não, reuniões de trabalho muito sérias acontecem neste lugar.

As conversas mais recentes envolvendo falência vêm da época do declínio do Wii, e fortaleceram com o fiasco do Wii U. "Por que a Nintendo não desiste logo dos consoles e vira third party?" foi uma pergunta amplamente repetida na época. A ideia de jogar Zelda e Mario Kart num Playstation sem precisar recorrer a um emulador parecia mais interessante do que ver a empresa toda ir para o saco.

Depois de boas cartadas como os AmiibosPokémon GO (que, ok, nem foi tão rentável assim) e o console Nintendo Switch, a Big N deve respirar aliviada. Leia-se: passar por maus bocados é diferente de estar à beira da falência.

Loja abarrotada de Amiibos.
Os próximos passos da companhia vão em direção a uma saudável diversificação, que inclui um setor dedicado aos personagens da empresa no parque de diversões da Universal Studios em Orlando, além de uma participação maior no mercado de produtos licenciados (destaque para as Havaianas de Super Mario lançadas recentemente).

Não é que a empresa esteja livre da falência ontem, hoje e para sempre, mas, mesmo em seus momentos mais difíceis, a situação da Nintendo ou da Sega não esteve complicada como a da Konami, da Rovio ou da Atari (essa sim, aliás, já pediu falência de verdade).

A forma como as pessoas, especialmente em fóruns, são capazes de transformar gráficos de desempenho em previsões apocalípticas dignas do vidente Carlinhos é que é uma coisa curiosa e funciona, sim, como um fetiche.

Sendo um pouco mais claro: Sega e Nintendo não correm risco de falir a curto prazo. Mas também não correrão risco tão grande disso na próxima vez em que passarem por alguma crise, a menos que esta seja realmente muito, muito aguda. Estamos conversados? 😉👍

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